Sobre governamentalidade – Michel Foucault

Padrão

Resenha

Aula 8 de fevereiro de Michel Foucault – Segurança, Território e População

Sobre governamentalidade

– Foucault usa esse conceito para abordar o problema do Estado e da população.

– Por que abordar o Estado e a população a partir dessa noção de governamentalidade?

– O objetivo de Foucault é passar por fora da instituição para substituí-la pelo ponto de vista global da tecnologia do poder. Um método que passa por trás da instituição a fim de encontrar nela uma tecnologia do poder.

– Em segundo lugar, a segunda passagem ao exterior seria por função, ou seja, substituir o ponto de vista interno da função pelo externo de estratégias e táticas.

– A terceira passagem ao exterior é em relação ao objeto. De tentar compreender o movimento pelo qual se constituía, através de certas tecnologias, um campo de verdade com objetos do saber. (Aqui seria o caso de trocar o objeto pela coisa. A loucura é uma coisa, mas não quer dizer que ela exista).

– Ou seja, o ponto de vista adotado nestes três métodos buscava destacar as relações de poder das instituições, a fim de analisá-las sob o prisma das tecnologias, destacá-las também da função, para retomá-las numa análise estratégica e destacá-las do privilégio e objeto, a fim de procurar ressituá-las do ponto de vista da constituição dos campos, domínios e objetos de saber.

– A palavra governar abriga significados diversos, desde o início do século XII, XIV e XV. Antes de adquirir seu sentido político a partir do século XV, governar abrangia um vasto domínio semântico, que refere-se, sobretudo, ao controle que se pode exercer sobre si e seu corpo, sobre os outros. Refere-se a um comércio, a um processo circular ou de troca.

– Importante lembrar que em todos os sentidos quem é governado são sempre as pessoas, homens, indivíduos e coletividade. Os homens é que são governador, não a cidade.

– Ideia de um governo dos homens é uma ideia que deve ser buscada no Oriente: sob a forma de um poder pastoral e depois sob a forma de direção da consciência, das almas.

– O pastorado é um tipo de relação fundamental entre Deus e os homens, na qual o rei participa dessa estrutura estando entre o Deus e os homens.

– Hebreus: Relação pastoral se desenvolveu e intensificou. Esta relação do pastorado com hebreus é super religiosa. Deus e povo é como o pastor e seu rebanho.

– Nos Gregos, nunca será encontrada a ideia de deuses que conduzem o homem como pastor e seu rebanho.

– Esse poder do pastor não se exerce sob um território, é um poder que se exerce sobre um rebanho, mais exatamente sobre o rebanho em seu deslocamento, no momento em que o faz ir de um ponto a outro.

– O poder do pastor se exerce sobre a multiplicidade em movimento.

– Deus grego: territorializante, tem seu lugar privilegiado, sua cidade, seu tempo.

– Deus hebraico: Deus que caminha, que se desloca, que erra. Nunca sua presença é mais intensa do que quando o povo se desloca, se movimenta, deixa as cidades. Já o Deus grego aparece na muralha para defender sua cidade.

– O poder pastoral é definido por fazer o bem, este é o objetivo essencial para a salvação do rebanho. O pastor é aquele que zela, cuida, está a serviço do rebanho.

– Poder pastoral é individualizante, é verdade que ele dirige por todo rebanho, mas só dirige bem na medida que não haja uma ovelha que possa lhe escapar.

– Paradoxo do pastor: sacrifício de um pelo todo, de todo por um, que vai estar no cerne da problemática cristã do pastorado.

– Ou seja, a ideia de poder pastoral é a ideia de um poder que se exerce mais sobre uma multiplicidade do que um território. É um poder que guia para um objetivo e serve de intermediário rumo a esse objetivo. É um poder que visa ao mesmo tempo todos e cada um em sua paradoxal existência.

 

Foucault5

Michel Foucault foi um grande filósofo e professor do Collège de France, onde desenvolveu todo o seu trabalho em torno da arqueologia do saber filosófico, da experiência literária e da análise do discurso. Além dos estudos sobre a governamentalidade e as práticas de subjetivação.

Anúncios

How to build rich observation devices – Tommaso Venturini (parte 6)

Padrão

Última parte do artigo do Tommaso Venturini- Diving in Magma. Tradução Livre Como construir um valioso dispositivo de observação Bruno Latour e a Teoria Ator-Rede são frequentemente acusados de não tomarem posição sobre os problemas que estudam, sendo, dessa forma, politicamente ingênuos (por acreditarem que as ciências sociais poderiam observar e descrever sem a interferência com seus objetos) ou cínicos (acreditando que as ciências sociais não podem influenciar a vida social). O que dissemos sobre “apenas observar as controvérsias” pode de alguma forma confirmar tais críticas. A multiplicação de atores e perspectivas, pontos de vistas e argumentos, pode ser confundida com um recurso para evitar obrigações. Não é esse o caso: a Teoria Ator-Rede nunca tentou evitar suas responsabilidades e nunca questionou o fato de que as ciências sociais podem e devem contribuir para o debate público. O problema é: qual a contribuição que ela deve dar e como isto deve ser feito? De acordo com a ANT, o papel que a pesquisa deve desempenhar em disputas coletivas não é o de orientar o seu debate. Atores (não os estudiosos) são responsáveis por decidir as controvérsias. Mais uma vez, é uma questão de respeito. Controvérsias pertencem aos atores: atores que semearam suas sementes, que levantaram os seus rebentos, que alimentaram o seu desenvolvimento. Estudiosos não têm o direito de entrar e impor suas soluções. Pesquisadores podem certamente expressar suas ideias e as cartografias sociais os motiva a fazê-lo. Ainda assim, na exibição de suas opiniões, eles devem prestar a máxima atenção para não a escondê-la dos outros. Diferente da maior parte das abordagens sociais, a cartografia das controvérsias não se vangloria da imparcialidade – ela só exige que seus praticantes apresentem outras parcialidades além de sua própria. Cartógrafos sociais não pretendem encerrar controvérsias, mas mostrar que elas podem ser debatidas em muitas diferentes maneiras. Seu propósito não é silenciar a discussão em nome da “Verdade Científica”, mas mostrar que muitas outras verdades merecem ser ouvidas. É verdade: a ANT é muitas vezes hesitante quando se trata de tomar uma posição, mas essa hesitação não vem da ingenuidade ou cinismo. Ela vem do medo de encurtar o debate antes dele ter o tempo de explorar completamente suas riquezas, de inserir uma interpretação antes que todos os atores pudessem ter a chance de expressar as suas próprias opiniões. Aqueles que estudam as controvérsias têm visto muitos cosmos opostos, muitas definições contraditórias de problemas e soluções, para acreditar que podemfacilmente nos dizer quem está certo ou errado. Cartógrafos sociais sabem que os problemas são sempre muito complicados, sutis e em constante mudança para ser cortado como um nó górdio. A contribuição mais digna que a observação cartográfica pode dar a discussão coletiva não é reduzir a sua complexidade, mas se certificar de que ela continua sendo suficientemente complexa para que cada voz seja ouvida. É claro, esta é apenas a metade da história. Como dissemos, a vida social flui como magma em um duplo movimento de liquefação e solidificação. Quando observamos controvérsias, focamos no estado líquido, pois só brigas, disputas, lutas e novos atores podem fazer o seu caminho para a superfície da sociedade. Quando descrevemos as controvérsias, contribuímos para a solidificação de algumas partes do magma social reduzindo sua complexidade a um nível administrável. Ambas tarefas são igualmente importantes e intimamente ligadas na prática da cartografia social (bem como nos fenômenos coletivos). Entretanto, observar e descrever não deve ser confundido por ter diferente propósitos e consequências. Bruno Latour discutiu uma similar distinção no livro dedicado a Política da Natureza (“Politics of Nature” – 2004d, especially pp. 108-116). Enquanto redefiniu o processo político na coletividade contemporânea, Latour introduziu quatro recomendações que podem ser facilmente estendidas a prática de mapeamento social. “Primeiro requisito: Você não deve simplificar o número de proposições a serem levadas em conta na discussão. Perplexidade. Segundo requisito: Você deve ter certeza de que o número de vozes que participam da articulação da proposição não é arbitrariamente um curto-circuito. Consulta. Terceiro requisito: Você deve discutir a compatibilidade de novas propostas com aquelas que já estão instituídas, de tal forma forma a mantê-las no mesmo mundo comum que lhes dará o seu lugar legítimo. Hierarquização. Quarto requisito: Uma vez que a proposição tenha sido instituída, você não deve mais questionar a legitimidade de sua presença no cerne da vida coletiva. Instituição.” (p.109) Não há nada particularmente original nesses requisitos. Nenhuma investigação séria em ciências sociais poderia ser feita sem a observação da complexidade da vida coletiva e da simplificação através das descrições. O que é inovador não é reconhecer a existência desses dois conjuntos de etapas, mas revelar sua contradição – pois há uma evidente contradição entre explorar a riqueza infinita da paisagem social e desenhar um mapa para fazer tal paisagem palpável. Cartógrafos não devem esquecer que sempre que traçam um debate perdem parte de sua vitalidade e interesse: uma escolha inevitável, é claro, e continua não sendo tomada como atrativa.  É por isso que é importante não confundir observação e descrição e também o porquê de nós decidirmos deixar o terceiro e quarto requisito (Hierarquização e Instituição) para um próximo artigo. Quanto aos requisitos de perplexidade e consulta, eles condensam tudo que dissemos sobre observação das controvérsias. Quando se trata de avaliar o trabalho de observação de seus alunos, Bruno Latour premia a articulação (a habilidade de “ser afetado por diferenças”) muito mais do que precisão e consistência. Observar a controvérsia é como a criação de um observatório científico: a qualidade da observação depende da capacidade de multiplicar o número e o aumento da sensitividade de dispositivos de monitoramento. Somente pela acumulação de notas, documentos, entrevistas, pesquisas, arquivos, experimentos, estatísticas, os pesquisadores podem se esforçar para não reduzir a riqueza incrível de vida coletiva. É claro, isto tornará a interpretação muito mais difícil, complicará o trabalho de representação, retardará a construção de um cosmos compartilhado. Mas, ainda assim, não existe outra forma de fazer tal construção em um empreendimento democrático, nem outra maneira de garantir que todos os atores e redes tenham justa possibilidade de participar de existência coletiva: “O desejo ardente de ter novas entidades detectadas, acolhidas e com devido abrigo, não só é legítimo como é provavelmente a única causa científica e política pela qual vale a pena viver” (Latour, 2005:. p. 259). Longe de evitar seus compromissos, a cartografia de controvérsia toma a mais forte posição política: não apenas mudar o mundo, mas dar aos outros a chance de fazê-lo. TommasoVenturini_large Tommaso Venturini é professor e coordenador das atividades de pesquisa do Sciences.Po Medialab. Leciona disciplinas como Mapeamento de controvérsias, Métodos Digitais e Jornalismo de Dados. http://www.medialab.sciences-po.fr

Five observation lenses – Tommaso Venturini (parte 5)

Padrão

Tradução Livre

Cinco lentes de observação

Depois de escolher a controvérsia, os estudiosos podem começar sua campanha de observação. Mais uma vez, é importante falar que a prioridade dada a observação não deve ser mal interpretada, como já explicamos, na cartografia social, ela nunca é uma busca pelo ponto de vista final. Longe de procurar por uma visão purificada, a cartografia das controvérsias está sempre interessada nas múltiplas interferências e contaminações. Para ensinar estudiosos a mudarem suas perspectivas, uma série de lentes de observações foram criadas durante esses anos de estudo. Como lentes intercambiáveis de uma câmera ou microscópio, essas lentes são avisos para a observação – muito mais do que orientações metodológicas. O objetivo não é que você nos conte o que observa, e sim focar a visão em diferentes camadas da controvérsia. As lentes não são obrigatórios nem exaustivas – elas apenas nos lembram de que a observação minuciosa é impossível sem a sobreposição de uma variedade de camadas.

1. De afirmações a literaturas. Ao se aproximar de qualquer controvérsia, a primeira impressão geralmente é a de uma névoa caótica de afirmações concorrentes. Vamos considerar, por exemplo, o debate sobre os organismos geneticamente modificados. Tal disputa ilustra como as controvérsias podem funcionar como geradores de discussões nas quais – quando se trata de GMOs (Genetically Modified Organism – Organismos geneticamente modificados), em particular – não há praticamente nada em que atores concordam. Cada nova confirmação, não importando quão marginal ou técnica, gera uma nova avalanche de respostas e discussões. Uma borboleta monarca (ou não) batendo suas asas em Ithaca pode, literalmente, começar um tornado por todo o mundo. Iniciando o estudo das controvérsias das GMOs, deixamos o terreno estável de crenças estabelecidas para entrar em um profundo campo de batalha onde nada pode ser dado como certo sem o crescimento de uma tempestade de menções negativas e alternativas. Identificar a extensão do campo da controvérsia, no entanto, é apenas o primeiro passo em direção à cartografia social. Embora com o conhecimento sobre a natureza caótica das controvérsias, cartógrafos devem também reconhecer a existência de uma densa rede de relações entre as declarações que circulam em uma disputa. Um afirmação como: “GMOs não devem ser testadas em campos abertos” não é uma afirmação isolada, mas o centro de uma vasta rede de declarações relativas a polinização cruzada, a poluição genética, a biodiversidade, ao princípio da precaução e assim por diante. A primeira tarefa do cartógrafo social é mapear essa rede de referência, revelando como discursos dispersos são entrelaçados em literaturas articuladas. Graças a bibliografia e ferramentas de métricas sociais, essas estruturas textuais são particularmente fáceis de serem registradas como ciência e tecnologia. No entanto, literaturas existem em todos os domínios sociais e inspiram a cada debate coletivo. Para ser exato, literaturas reais nada tem nada a ver com as imagens bem organizados e ordenadas, muitas vezes fornecidas por manuais e antologias. Especialmente quando se refere a problemas das controvérsias, bibliografias são dinâmicas e disputadas como as próprias controvérsias. Porém, elas constituem um primeiro nível de articulação que a cartografia social deve ser capaz de destacar.

2. Da literatura aos atores. Seguindo as redes de relações que circundam as  controvérsias declarações, cartógrafos sociais são inevitavelmente levados a considerar as conexões que se espalham além dos limites do universo. Além de ser conectada a outras reivindicações, as afirmações são sempre parte de grandes redes que compõem os seres humanos, objetos técnicos, organismos naturais, entidades metafísicas e assim por diante. Na Teoria Ator-Rede e na cartografia das controvérsias, nos referimos a todos esses seres como o termo genérico de “atores”. O significado de tal termo é, naturalmente, o mais amplo: um ator é qualquer coisa fazendo algo. Esta definição é de certa forma tautológica, mas ela aparece com o teste prático: quando você quer saber se algo está atuando em uma controvérsia, apenas pergunte-se se a sua presença ou ausência faz alguma diferença. Se faz alguma diferença e se ela é percebida pelos outros atores, então ele é um ator. Vamos voltar aos exemplos do GMOs: há cerca de dez anos, ninguém suspeitava que borboletas-monarcas poderiam ser atores cruciais na controvérsia da biotecnologia. Em 1999, entretanto, alguns cientistas da Universidade de Cornell publicaram os resultados do experimento mostrando que as lagartas-monarcas poderiam ser severamente ameaçadas por cultivos transgênicos. Essa novidade gerou uma onda de protestos contra os alimentos geneticamente modificados e várias autorizações foram bloqueadas devido ao princípio de precaução. E de repente, a presença das borboletas-monarcas (quase não notada até então) começou a fazer uma grande diferença no debate dos GMOs – borboletas se tornaram o ator da controvérsia. A história das borboletas-monarcas são instrutivas porque convidam os cartógrafos social a dedicarem uma maior atenção a todos os atores envolvidos, não importando se eles são humanos, animais, artefatos ou qualquer outra coisa. Tudo pode ser um ator desde que ele faça alguma diferença.

3. De atores as redes. Introduzindo a metáfora do magma, já explicamos como, de acordo com a ANT, não existe um ator isolado. Atores são sempre as interfaces entre os diferentes coletivos sociais enquanto ambos são composto e componentes de redes. Considere qualquer cultivo de biotecnologia: cada semente única transgênica é o resultado de um coordenado trabalho de uma extensa rede feita de protocolos científicos, campos de triagem, investimentos em pesquisas, instrumentos técnicos e patentes industriais. Ao mesmo tempo, cada pequena semente contribui para uma rede mais ampla que reúne corporações globais, laboratórios científicos, organizações de ativistas, a legislação nacional e internacional. Contemplar os GMOs isoladamente, esquecendo todo o trabalho que fazem e o porque eles são feitos, é a receita mais segura para incompreensão. Atores são tais porque eles interagem, moldando relações e sendo alterados por elas. Cartógrafos sociais não devem ignorar esse dinamismo relacional: observar controvérsias é perceber o incessante trabalho de fazer e desfazer conexões. Nas próprias palavras de Latour “Estar conectado, estar interconectado, ser heterogêneo, isto não é suficiente.Tudo depende do tipo de ação que está fluindo de um para o outro, daí as palavras ‘rede’ e ‘trabalho’. Realmente, deveríamos falar “trabalho em rede” ao invés de “rede de trabalho”. É o trabalho, o movimento, o fluxo, e as alterações que devem ser enfatizados” (2004a, p. 63).

4. Das redes aos cosmos. A ênfase que colocamos em redes dinâmicas não deve levar ao esquecimento de que a maioria dos atores e grupos aspiram algum tipo de estabilidade. Poucos atores estão interessados ​​em desestabilizar as redes sociais existentes apenas por uma questão de caos. Se você estabelecer uma cruzada contra a cultura de transgênicos, é provavelmente porque você é inclinado a agricultura orgânica; se luta contra a modernização, há chances de que você seja tradicional; se sabota o sistema global, é um potencial partidário das comunidades locais. Mesmo anarquistas têm imagens da sociedade que gostariam de estabelecer, mesmo os oportunistas têm utopias. O fato das controvérsias tornarem a existência coletiva mais e mais complexa não significa que aqueles que lutam contra ela não são levados por um desejo de simplificação. Aqueles que apoiam a disseminação de GMOs nos países em desenvolvimento, por exemplo, estão perfeitamente conscientes de que eles irão atrapalhar a organização tradicional das comunidades rurais. Ainda assim, eles continuam acreditando que a inovação tornará sistemas agrícolas mais eficientes e mais fortes. Sim, algumas antigas tradições agrícolas serão esmagadas, mas no desenvolvimento econômico a longo prazo o progresso técnico originará sociedades melhores. De forma análoga mas oposta, ativistas denunciam as falhas da agricultura industrial que são frequentemente inspiradas pelas visões românticas da vida tradicional no campo. A importância dessas ideologias não devem ser subestimadas. Claro que eles não têm nada a fazer com o atual magma da existência coletiva, mas isso não significa que eles não podem afetá-la. Ideologias não são destinadas a serem uma descrição do mundo como ele é, mas visões do mundo de como ele deve ser. Enquanto vidas coletivas são caóticas e excêntricas, ideologias são ordenadas e harmoniosas: não existe universo, mas cosmos. Como tal, ideologias podem ser mais influentes que qualquer cálculo realista. Observação, portanto, não pode ser limitada a afirmações, ações e relações, mas deve ser estendida ao significado que atores atribuem a ela. Somente atravessando de cosmos a cosmos é que cartógrafos social podem perceber a completa extensão de suas controvérsias.

5. Dos cosmos a cosmopolítica. A última camada da nossa lista é de longe o item mais complicado. Para entendê-los é necessário abandonar uma das mais adoradas ideias da cultura ocidental: a crença de que, por trás de toda ideologia e controvérsia, deva existir alguma realidade objetiva independente do que os atores pensam ou falam sobre isto. De acordo com essa ideia (que pode retornar a caverna de Platão), tanto ideologias quanto controvérsias origem de uma imperfeição na inteligência humana. Muitos vieses, interesses, ilusões e preocupações distorcem a visão subjetiva do mundo, tanto que homens são levados a acreditar que vivem em diferentes cosmos e que devem lutar por eles. Se todo homem pudesse ver a realidade como ela realmente é, de forma pacífica e racional, negociariam sua existência coletiva. Além de ser muito centrada no homem (esquecendo que nem todos os atores sociais são seres humanos), essa ideia tem uma grande desvantagem: ela frequentemente acaba justificando o absolutismo. Assim que o último substrato de verdade é postulado, atores começam a reivindicar pelo acesso privilegiado a isso. Através da filosofia, religião, arte, ciência ou tecnologia a realidade pode finalmente ser revelada e todo mundo irá finalmente concordar (mesmo se gostar ou não). Infelizmente (ou melhor felizmente), não importa o quão confiante esses profetas possam parecer, nem todo mundo eventualmente concorda. Esta é uma das lições cruciais da cartografia das controvérsias. Escolha qualquer filosofia, religião, artes, ciências ou verdade técnica e você vai encontrar uma controvérsia. As vezes disputas são temporariamente silenciadas pelo fato de alguns cosmos se prevalecerem sobre os atores pelo fato destes terem encontrado um compromisso de resistir, mas nenhum acordo, nenhuma convenção, nenhuma realidade coletiva já surgiu sem discussão. Isto não significa que nós nunca poderíamos habitar um mundo com paz, de que nós nunca poderíamos alinhar nossas visões ou que nunca poderíamos concordar com a verdade. Um mundo comum é possível, mas não como “algo que venha a reconhecer, como se tivesse sido sempre aqui (e não tínhamos até agora percebido). Um mundo comum, se um dia existir um, é algo que iremos construir, com unhas e dentes, juntos”.

TommasoVenturini_large

Tommaso Venturini é professor e coordenador das atividades de pesquisa do Sciences.Po Medialab. Leciona disciplinas como Mapeamento de controvérsias, Métodos Digitais e Jornalismo de Dados. http://www.medialab.sciences-po.fr

Choosing a good controversy – Tommaso Venturini (parte 4)

Padrão

Tradução livre

Escolhendo uma boa controvérsia

Embora cada fenômeno coletivo possa ser observado como uma controvérsia, não são todos que fornecem um bom objeto de estudo. Quando começamos a mapear um projeto, a primeira coisa a ser escolhida é sempre qual controvérsia será analisada. Uma escolha satisfatória torna a investigação interessante e realizável e uma errada levará ao fracasso. Infelizmente, não existe nenhuma instrução exata de como selecionar uma boa controvérsia, tudo que podemos fornecer são algumas recomendações para que se possa evitar as ruins.

1. Evite controvérsias frias. Como dissemos, nós podemos chamar de controvérsias qualquer coisa entre uma recíproca indiferente e plena harmonia. Controvérsias são ainda melhor observadas quando chegam ao auge do seu debate. Se não existe debate ou este é apático, se todos os atores concordam com as questões principais e estão dispostos a negociar em favor da minoria, então aí não existe uma autêntica controvérsia e o resultado da cartografia será entediante ou parcial. Boas controvérsias são sempre “quentes”: elas podem envolver números limitados de atores, mas devem ter alguma ação em desenvolvimento.

2. Evite controvérsias antigas. Problemas devem ser estudados quando eles são notáveis ou caso não apresentem nenhum solução. Uma vez que o acordo mútuo seja alcançado e a solução seja imposta ou aceita de alguma outra forma, controvérsias perdem rapidamente todo o interesse. Problemas passados devem ser investigados somente se a observação consiga retornar para o momento no qual a controvérsia perdeu o valor.

3. Evite controvérsias ilimitadas. Controvérsias são complexas e, se são vívidas e abertas, tendem a se tornar mais e mais complexas ao ser acrescentados novos atores e problemas. Ao selecionar seu caso de estudo, seja realista e ciente do trabalho que tem em mãos. Mapear grandes debates, tal como o aquecimento global ou a modificação genética de organismos, requer grandes quantidades de tempo e trabalho. Como uma regra geral, quanto mais uma controvérsia se restringe a um assunto específico, mais fácil ela será de ser analisada.

4. Evite controvérsias profundas. Para uma controvérsia ser observável, ela tem que ser, pelo menos parcialmente, aberta ao debate público. Questões confidenciais ou classificadas, bem como grupos sectários ou maçônicos, podem expor a cartografia social ao risco de deriva em direção às teorias da conspiração. O problema não é que poucos atores estão envolvidos nestas controvérsias, mas que essas figuras tenham uma atitude reservada. A cartografia das controvérsias foi desenvolvida para mapear espaços públicos e se sai mal quando é aplicada em espaços secretos.

Depois desta lista de recomendações negativas, há, pelo menos, uma sugestão positiva que estudiosos podem considerar: preferir as controvérsias sobre questões científicas ou técnicas. Contar com essa preferência exigiria um longo desvio na Teoria Ator-Rede (que nós preferimos não seguir neste artigo). Vamos apenas dizer que a cartografia das controvérsias foi amplamente desenvolvida devido à crescente dificuldade em separar ciência e tecnologia dos outros domínios sociais. Considere as principais controvérsias que causam problemas a sociedade: os desequilíbrios da industrialização, o esgotamento de recursos naturais, as crises ecológicas, os dilemas bioéticos e assim por diante. Todas essas disputas giram em torno de problemas técnocientíficos, ofuscando a fronteira entre ciência e política, cultura e tecnologia, moral e economia. A configuração da existência da vida coletiva moderna repousa sobre a contribuição de atores científicos e técnicos. Vírus, mísseis balísticos, índices de bolsa de valores, plantações, cromossomos, camadas de ozônio, embriões e ecossistemas – todos esses atores (junto com seus engenheiros e cientistas associados) entraram em nossa sociedade e não foram embora. Poucas coisas na nossa sociedade podem ser entendidas sem levar em conta a ciência e a tecnologia.

A cartografia das controvérsias foi criada como um conjunto de ferramentas para lidar com essa crescente hibridização, como um esforço de seguir disputas quando estas atravessam fronteiras disciplinares. Cartógrafos sociais devem estar prontos para impulsionar sua investigação muito além dos limites da sociologia e não somente em direção às ciências humanas vizinhas, mas também em direção a muito outros domínios das ciências naturais. Ao questionar sobre o debate da célula tronco, por exemplo, os sociólogos não podem evitar os problemas biológicos e médicos da questão. Quais doenças podem ser curadas com o tratamento de células-tronco; como a pesquisa sobre o método é financiada e organizada; as células-tronco podem ser extraídas de tecidos adultos; qual é a disponibilidade de estoque de células-tronco a partir de embriões fertilizados in vitro – longe de ser minúcias técnicas, estas questões estão no cerne da cartografia das controvérsias e merecem grande atenção.

Se querem compreender debates modernos, cartógrafos não têm outra escolha senão “mergulhar” nos detalhes tecnocientíficos, não importando quão profundo esse possa ser. Esta cuidadosa atenção ao tecnicismo é frequentemente atribuída como a principal dificuldade da cartografia das controvérsias. Mas este é raramente o caso. Por mais estranho que parece ser, a didática da cartografia social provou que quanto mais técnica uma controvérsia é, mais fácil ela será de ser observada. Várias razões apontam para esse aparente paradoxo: problemas científicos são geralmente mais limitados, melhor documentado e mais aberto e organizado para a discussão. Mesmo o formalismo científico, uma vez dominado, se torna muito mais uma ajuda do que um obstáculo. É por isso que recomendamos escolher controvérsias que são diretamente centralizadas na ciência e tecnologia. Como não há maneira de evitar complicações técnico-científicos, estudiosos também devem centralizar suas investigações sobre elas. Ao contrário da primeira impressão dos estudiosos, isto tornará a observação mais fácil e interessante.

 

TommasoVenturini_largeTommaso Venturini é professor e coordenador das atividades de pesquisa do Sciences.Po Medialab. Leciona disciplinas como Mapeamento de controvérsias, Métodos Digitais e Jornalismo de Dados. http://www.medialab.sciences-po.fr

The magmatic flow of collective life – Tommaso Venturini (parte 3)

Padrão

Tradução livre

O fluxo magmático da vida coletiva 

Depois de tudo que dissemos sobre a “cartografia social” e a não-simplificação de “somente observar”, leitores podem parecer tentados à abandonar este artigo e o método da cartografia das controvérsias. Este é um sentimento legítimo. Como uma conversa entre Pinóquio e o grilo falante, a cartografia de Latour não tem nada a prometer se não complicações e dificuldades. Para o estudioso que está se afogando na areia movediça da complexidade social, a cartografia das controvérsias rejeita qualquer ajuda e recomenda aos mesmos, ao contrário, que nadem neste mar.

Não é de se admirar que leitores se sintam um pouco desmotivados a entrar neste mar. Ainda assim, antes de traduzir a conversa do “grilo falante” e despedaçar este artigo, deixe-me listar um par de razões para que você possa considerar a complexidade sob uma luz menos sombria.

Em primeiro lugar, se a cartografia das controvérsias é complexa, é porque a própria vida coletiva assim parece ser. Você alguma vez já tentou montar uma banda de rock? organizar um campeonato de xadrez? criar uma associação de observadores de pássaros? compartilhar um apartamento ou um carro? Se você tem ou participa de qualquer outra ação coletiva, deve ter aprendido que coordená-las pode ser difícil. Situações coletivas são sempre complexas e se mais atores estão interessados fica ainda mais difícil de entendê-las (especialmente se atores não humanos estão envolvidos). Não é a cartografia da controvérsia que complica algo simples, são as outras abordagens que simplificam algo complexo. Como pesquisadores sociais, devemos estar pelo menos prontos para lidar com tanta complexidade como os atores que observamos.

Porém é melhor ter cuidado. Não estamos dizendo que a vida social é inevitavelmente caótica e portanto impossível de interpretar. Nem afirmamos que a complexidade é tal que não existe estabilidade, ordem e organização. Apesar de todas as voltas e reviravoltas, há sentido em existências coletivas (mesmo que não seja claro, único ou simples). Atores são constantemente forçados a reduzir a complexidade de suas interações, depois de todas bandas formadas, torneios organizados, associações criadas e coisas compartilhadas. Simplificações são possíveis. E cada simplificação coletiva precisa de trabalho para ser construída e mais ainda para ser mantida. Considere esta como a mais natural distinção social: a oposição entre o que está dentro e fora de um grupo. De insetos sociais a sociedade modernas, enormes quantidades de pesquisas são constantemente mobilizadas para preservar tais fronteiras. Pessoas e objetos dedicam sua existência para dar sentido a distinções internas e externas – pergunte aos guardas de prisão, porteiros, seguranças, muros, cercas e barreiras (nós retornaremos a esta questão no próximo artigo). No momento, vamos apenas dizer que: se a cartografia social exige um árduo trabalho, é porque a própria vida social é feita de um duro trabalho. Alegar ter fácil acesso a simplicidade, enquanto os atores estão lutando constantemente para gerenciar a complexidade, seria no mínimo desrespeitoso.

Em segundo lugar, embora árduo e complexo, controvérsias continuam sendo a melhor situação disponível para observar o mundo social. Por razões que se tornarão claras em nosso artigo seguinte, a cartografia das controvérsias é completamente construtivista. De acordo com essa abordagem, nada pode atingir a vida coletiva a não ser o resultado de um trabalho conjunto, e controvérsias são as configurações onde esse trabalho se torna mais visível. Imagine que você esteja interessado em entender um técnica construtiva, por exemplo, como assar um bolo. Conhecer os ingredientes certamente seria útil, assim como degustar o bolo, assim que ele estivesse pronto. Ainda assim, nem os ingredientes, nem o bolo pronto são o suficiente para desvendar a sua preparação. Para aprender como assar um bolo, você deverá entrar na cozinha e observar o cozimento em ação. Mesmo assim, se cozinheiros trabalham a toda velocidade sem explicar o que estão fazendo, então você terá um duro trabalho para entender o que se passa ali. De qualquer forma, se cozinheiros começam a discordar da medida dos alimentos, disputar sobre a ordem das operações, discutir sobre o tempo de cozimento, então é aí que você poderá realmente aprender algo sobre bolos. A mesma situação é verdadeira para vida coletivas. Para entender como o fenômeno social é construído, não é suficientemente eficaz observar os atores sozinhos e nem observar as redes sociais uma vez que elas estão estabilizadas. O que deve ser observado são as redes de atores, ou seja, as efêmeras configurações nas quais os atores refazem os antigos laços e a emergência de novas redes que surgem redefinindo a identidade dos atores. Essas configurações constituem o objeto da Teoria Ator-Rede, assim como o da cartografia das controvérsias.

De acordo com Bruno Latour, o social não pode ser estudado, seja no seu formato sólido (as redes estabilizadas) ou no seu formato líquido (atores isolados): “Em ambos casos, o social desaparece. Quando é tomado como sólido, perde a capacidade de associação; ao ser tratado como líquido, o ganho social desaparece porque ele surge apenas por um instante, somente no momento passageiro quando novas associações estão se fixando a vidas coletivas.” (2005, p.159). Para observar a construção do social, estudiosos não têm outra saída senão mergulhar nas controvérsias, não importando quão difícil e perigoso possa parecer. Controvérsias são complexas porque elas são cruciais onde a vida coletiva é fundida e estabelecida: elas são sociais no seu estado magmático. De acordo com a definição do Dicionário “Brittanica”, magma é um fluido de “uma rocha praticamente derretida”, a configuração dessa rocha é sólida e líquida ao mesmo tempo, exatamente como a cartografia das controvérsias. Mas há mais a ser acrescentado a essa metáfora: o que é mais interessante no magma é que estados sólidos e líquidos existem em uma transformação mútua incessante. Por um lado, a rocha sólida tocada pelo calor do fluxo derrete e se torna parte dele. Por outro, nas margens do fluido, a lava resfria e cristaliza.

A mesma dinâmica pode ser observada nas controvérsias, a mesma variação entre diferentes estados de solidez. Através desta dinâmica o social é incessantemente construído, desconstruído e reconstruído. Este é o social em ação e este é o porque de nós não termos outra opção se não mergulhar no magma.

TommasoVenturini_largeTommaso Venturini é professor e coordenador das atividades de pesquisa do Sciences.Po Medialab. Leciona disciplinas como Mapeamento de controvérsias, Métodos Digitais e Jornalismo de Dados. http://www.medialab.sciences-po.fr

What´s in a controversy? – Tommaso Venturini (parte 2)

Padrão

Tradução Livre

O que há em uma controvérsia?

Controvérsias são certamente, e, de longe, os fenômenos mais complexos a serem observados na vida coletiva. No documento oficial da Macospol, controvérsias são definidas como:

A palavra “controvérsia” se refere aqui a cada pedaço de ciência e tecnologia que ainda não foi estabelecido, fechado ou “em caixa preta”; isto não significa que há uma disputa feroz, nem que ela foi politizada; podemos usá-la como termo geral para descrever a incerteza partilhada.

Deixando de lado a referência à ciência e tecnologia (que será discutida depois), a definição de controvérsia é bastante simples: elas são situações nas quais os atores discordam (ou melhor, concordam em discordar). A noção de divergência deve ser tomada no sentido mais amplo: controvérsias começam quando atores descobrem que eles não podem ignorar um ao outro e termina quando atores conseguem elaborar um sólido compromisso de viverem juntos. Qualquer coisa entre esses dois extremos (o frio consenso do desconhecimento recíproco e consenso caloroso do acordo e aliança) pode ser chamado de controvérsia.

Considere, por exemplo, a controvérsia do aquecimento global. Tudo começou como uma disputa entre climatologistas especializados e em poucas décadas cresceu a ponto de envolver um grande número de disciplinas científicas, lobbies industriais, instituições internacionais, movimentos sociais, espécies naturais, redes biológicas, geofísica e fenômenos atmosféricos. Todos esses tipos de atores vêm sendo mobilizados e envolvidos na luta contra o aquecimento global. Há poucos anos atrás, ninguém pensaria que pudesse haver relação entre carros e geleiras. Mas hoje nós sabemos que eles podem ser o oposto no tabuleiro climático, assim como, ar condicionado e ursos polares, nível do mar e crescimento econômico, aviões e plantações. Uma questão aparentemente simples sobre a temperatura da Terra (ela está aumentando?) gera uma grande bola de neve: como a temperatura deve ser medida? Existem variações excepcionais? Quais são as causas do aquecimento? Ele está afetando o clima? Quais as consequências da mudança no clima? Devemos nos preocupar sobre o aumento da temperatura? Podemos fazer algo para diminuir ou reverter a tendência da temperatura? Deveríamos investir na atenuação dos efeitos do aquecimento global ou nos adaptar a eles?

Nem todas as disputas são dinâmicas como essas encontradas no aquecimento global e poucas atingiram a mesma ampla audiência. De qualquer forma, algumas características do debate sobre as mudanças climáticas são comuns a todas controvérsias.

1. Controvérsias envolvem todos os tipos de atoresnão somente seres humanos e grupos humanos, mas também elementos naturais e biológicos, produtos industriais e artísticos, institucionais e instituições econômicas, artefatos técnicos e científicos e assim por diante. Para ser exato, isso não significa dizer que todos os atores são iguais ou de que eles atuam da mesma forma. Migrações de borboletas e veículos movidos à hidrogênio habitam o mundo completamente e, ainda, na disputa sobre o aquecimento global podem terminar compartilhando a mesma frente de batalha. A controvérsia é o lugar onde a relação mais heterogênea será formada. Ativos econômicos da biodiversidade, cotas internacionais de CO2, painéis científicos intergovernamentais – o debate do aquecimento global desenvolve através da invenção incessante de novas quimeras. Cada controvérsia funciona como “fóruns híbridos”, um espaço de conflito e negociação entre atores que deveriam, de outra maneira, ignorar um ao outro. Afinal, onde mais poderia recifes de corais e fábricas de reciclagem se encontrarem se não em debates sobre o aquecimento global? Controvérsias são uma demonstração viva de que as fronteiras entre física e política, finanças e biologia, lei e engenharia, são tão insuperáveis quanto parecem ser.

2. Controvérsias exibem o social em sua forma mais dinâmica. Não somente novas e surpreendentes alianças emergem entre as mais diferentes entidades, como também entidades sociais que parecem ser indissolúveis de repente são quebradas em uma pluralidades de pedaços conflitantes. Enquanto borboletas e hidrogênio inesperadamente se encontram sob a mesma aliança, aparentemente estáveis e com entidades definidas, algo como “clima continental” ou “motor de combustão interna”, explode sob a pressão das oposições internas. Nas controvérsias, nenhum conjunto natural ou técnico pode ser tido como certo. Tome como exemplo aviões. Nos últimos 50 anos, todos se acostumaram a considerar motores a jato como um componente óbvio de aeronaves modernas. Nós poderíamos discutir sobre o modelo de negócio a baixo custo, rotas aéreas sustentáveis, a comparação da expansão de trens x avião, mas todos nós concordamos que os avião modernos possuem engenharia a jato. Hoje, sob a pressão da consciência ambiental sobre o carbono, mais e mais fábricas estão recuperando modelos antigos como uma alternativa eco-amigável. A controvérsia de aquecimento global desenvolveu todo o caminho para a caixa preta do design de aviões. Considere qualquer controvérsia e você terá um claro esclarecimento do significado do hífen na Teoria “Ator-Rede”. Dentro das controvérsias, qualquer ator pode ser dividido em uma rede de perdedores ou de qualquer rede, não importando quão heterogêneo, ele pode vir a funcionar como um ator.

3. Controvérsias são a redução-resistente. Disputas são, por definição, a situação onde simplificações antigas são rejeitadas e novas continuam sendo aceitas e impostas. Nas controvérsias, atores tendem a discordar em praticamente qualquer coisa, incluindo sua própria discordância. É por isso que problemas são tão difíceis de serem resolvidos, porque é impossível reduzi-los a uma única resumida questão. Pergunte uma simples questão tal como: “a temperatura está aumentando?” e atores irão, imediatamente, começar a discutir sobre o que significa o mundo (alguma área do mundo? a média mundial? superfície da atmosfera? urbana, rural ou área silvestre? quais instrumentos são utilizados? quais escalas de temperatura são consideradas?) e sobre o que significa o aumento de temperatura (a temperatura está aumentando ou oscilando? em quais escalas de tempo a temperatura deve ser avaliada? tendências passadas podem sugerir uma evolução presente e futuro?). A dificuldade da controvérsia não é a discordância da resposta do atores mas sim a ideia de que eles não podem sequer chegar a um acordo sobre as questões.

4. Controvérsias são debatidas. Controvérsias surgem quando coisas são levadas desde o início a serem questionadas e discutidas. É por isso que disputas são interessantes para as ciências sociais, uma vez que abrem as caixas-pretas. Antes das disputas sobre a poluição e o aquecimento global, poucas pessoas consideravam o desenvolvimento econômico como algo no qual valia a discussão. Pode haver diferenças sobre a forma de promover o crescimento econômico, mas todos mais ou menos concordam de que esse processo é desejável (pelo menos nos países ocidentais). Hoje temos centenas de definições sobre o que é o desenvolvimento e estamos perto de questionar se nós não deveríamos decrescer. O mais surpreendente é que o mesmo acontece com o que estamos acostumados a considerar como fenômenos naturais. Poucos anos atrás, ninguém pensaria que o nível do mar poderia vir a ser um objeto público de debate. Hoje sabemos que não podemos discutir sobre o crescimento econômico sem discutir sobre o crescimento dos níveis do oceano. Controvérsias são discussões (mesmo que nem sempre verbais) onde mais e mais objetos são discutidos por muitos e muitos atores. Quem, antes do aquecimento global,  já pensou que as comunidades unitárias ou os ursos polares poderiam influenciar nas posições sobre estratégias industriais? Hoje sabemos que eles influenciam e que devem ser ouvidos.

5. Controvérsias são conflitos. Apesar de algumas controvérsias nunca alcançarem a intensidade de lutas abertas, a construção de um universo compartilhado é frequentemente acompanhado de um embate de palavras conflitantes. É por isso, por exemplo, que a avaliação das mudanças climáticas não podem ser deixadas somente para os climatologistas. Economias nacionais e setores industriais podem aumentar ou cair dependendo de como a temperatura é medida; espécies biológicas podem proliferar ou extinguir ou a cultura indígena pode reviver ou desaparecer. Evidentemente, nem todas controvérsias dizem respeito a questões vitais. Ainda, não importando quão trivial um objeto parece ser, atores sempre levam discussões muito à sério, pois sabem que a ordem social e a hierarquia social estão em jogo. Controvérsias decidem e são decididas pela distribuição de poder. Atores não nascem iguais em controvérsias e raramente têm igualdade de oportunidades: focas árticas e líderes políticos eram ambos preocupados com a “Bali Conferência” sobre o clima, mas o segundo provavelmente um pouco mais influente. Controvérsias são lutas para conservar ou reverter as desigualdades sociais. Elas podem ser negociadas através do processo democrático, mas muitas vezes envolvem força e violência.

Em poucas palavras, quando olhamos para as controvérsias, procuramos onde vidas coletivas se tornam mais complexas: onde está a maior e as mais diversas variedades de atores envolvidas, onde as alianças e oposições se transformam em algo imprudente, onde nada é mais simples do que parece, onde tudo são gritos e brigas, onde cresce o árduo conflito. Lá, você vai encontrar o objeto da cartografia das controvérsias.

Leitores devem agora entender completamente o porque dissemos que “somente” e “controvérsia” tornam a observação incrivelmente difícil. Cartógrafos sociais são convidados a enfrentar o maior complexidade (cartografia) sem a menor simplificação (apenas). “Somente observar a cartografia” é como passear num labirinto com uma linha de tópicos a seguir.

Download Artigo Diving in Magma

TommasoVenturini_largeTommaso Venturini é professor e coordenador das atividades de pesquisa do Sciences.Po Medialab. Leciona disciplinas como Mapeamento de controvérsias, Métodos Digitais e Jornalismo de Dados. http://www.medialab.sciences-po.fr

Diving in Magma – Tommaso Venturini (parte 1)

Padrão

Tradução Livre: Priscilla Calmon

“Mergulho no Magma”

Como explorar controvérsias com a Teoria Ator-Rede

Versão preliminar

A cartografia das controvérsias é um conjunto de técnicas para explorar e visualizar problemas. Este método foi desenvolvido por Bruno Latour como uma versão didática da Teoria Ator-Rede para preparar estudantes universitários na investigação do debate sócio-técnico contemporâneo. O escopo e interesse de tal cartografia, entretanto, excede a didática original. Adotado e desenvolvido em várias universidades da Europa e Estados Unidos, a cartografia das controvérsias é hoje um método de pesquisa completo, embora, infelizmente, não tão bem documentado. Para preencher essa falta de documentação, nós traçamos nossa experiência, com apoio pedagógico de Latour, para introduzir algumas das principais técnicas de cartografia social e suas ferramentas. Em especial, nessas páginas, iremos focar na exploração, deixando a discussão da visualização em outro artigo.

Aviso: a cartografia das controvérsias não irá tornar sua vida mais fácil

A cartografia das controvérsias é o exercício de elaboração de dispositivos para observar e descrever o debate social, especialmente – mas não exclusivamente-  em torno dos problemas tecnocientíficos. Este trabalho foi iniciado por Bruno Latour na “École des Mines de Paris” há alguns anos atrás e é atualmente discutido em várias universidades europeias e americanas. Recentemente, a cartografia das controvérsias também tem se tornado objeto do consórcio financiado pela União Europeia, MACOSPOL (Mapping Controversies in Science and technology for Politics), que reúne oito universidades europeias e centros de pesquisa.

Desde a introdução, a cartografia das controvérsias de certa forma serviu como uma versão educacional da Teoria Ator-Rede (ANT). Como o ANT, este é o método de “viver, conhecer e praticar nas complexidades de tensão” (Law, 1999:12). Ao contrário da ANT, ela evita complicação conceituais sendo assim mais acessível aos estudantes. Com alguma aproximação, nós podemos descrever a cartografia das controvérsias como a prática da Teoria Ator-Rede sem o peso de todas as sutilezas teóricas. Como tal, a cartografia das controvérsias pode atrair aqueles que estão intrigados pela ANT,  mas a julgam como uma difícil implicação filosófica. Concentrando na prática de mapeamento e com os problemas conceituais esclarecidos, estudantes e pesquisadores podem esperar reduzir a ANT para uma versão mais próxima do usuário.

A princípio, a cartografia das controvérsias parece desapontar essas expectativas. Quando lhe pediram para soletrar as instruções de sua cartografia, Bruno Latour respondeu com uma indiferente encolhida de ombros: “basta olhar a controvérsia e me dizer o que você vê”. Tal definição é frequentemente recebida com algum ceticismo e não sem alguma razão. Se a cartografia de Latour é nada mais que “observar e descrever”, não é só a Teoria Ator-Rede que está sendo colocada de lado, mas praticamente qualquer teoria social assim como qualquer metodologia social. De fato, por mais suspeito que isso possa parecer, o mapeamento de controvérsias não implica em alguma suposição conceitual ou requer certo tipo de protocolo metodológico. Não existe nenhuma definição para aprender, nenhuma premissa para seguir, nenhuma hipótese para demonstrar, nenhum procedimento para seguir, nem correlação para ser estabelecida. Pesquisadores não são questionados sobre a explicação do que estão estudando e sim pelo que vêem na controvérsias e a descrição sobre o que está sendo visto. Como animais de zoológico recém nascidos e soltos na selva, estudantes iniciantes no método das cartografias reportam espanto e euforia.

Euforia, entretanto, não dura muito. Apesar de sua teoria e metodologia minimalista, a cartografia das controvérsias não é um pedaço de bolo (como estudantes descobriram com desapontamento assim que eles começaram seus testes). Longe de ser uma simples versão da ANT, cada pedaço da cartografia das controvérsias vem a ser árduo e complexo. O que parece ser, em teoria, que a mais simples demanda termina sendo, na prática, o mais difícil exercício. “Somente observar e descrever as controvérsias” – nada mais, exceto por dois pequenos problemas: “somente” e “controvérsias”.

Aqueles que buscam por uma diretriz do tipo “leia e siga as instruções” ficarão desapontados. A combinação de “somente” e “controvérsias” faz da cartografia social tão complexa quanto a Teoria Ator-Rede, talvez até mais. É por isso que nós escolhemos começar esse artigo com um alerta: ao contrário da maioria das técnicas de pesquisa, a cartografia das controvérsias nunca quis significar uma fácil investigação, mas torná-la mais lenta e difícil. Entre o parênteses de “somente” e “controvérsia”, a operação mais fácil (tal como observar e descrever) se torna o maior dos aborrecimentos. Documentando a cartografia das controvérsias, nós temos pouco a oferecer ao outro do que uma longa lista de dificuldades – tanto, de fato, que decidimos dividir em dois artigos. Nas próximas páginas, iremos mostrar como “somente” e “controvérsia” colocam a simples observação dentro de um grande problema. Em mais uma artigo, iremos focar na descrição, mostrando como a cartografia se torna extremamente difícil.

Para ter certeza, a distinção que nós traçamos entre observação e descrição é altamente artificial. É apenas por uma questão de clareza que iremos separar duas dimensões que são, de fato, perfeitamente entrelaçadas no exercício da cartografia. Distinguindo observação e descrição, não queremos retratar duas operações consecutivas (primeiro observar e então descrever). Observar e descrever controvérsias são sempre realizadas ao mesmo tempo. É importante também manter a distinção a fim de não confundir  a tarefa de implantar a complexidade das controvérsias (este artigo) com a tarefa de determinar a complexidade das mesmas (próximo artigo).

Os três significados de “somente”

Quando Bruno Latour orienta estudantes a “apenas observar” as vida coletivas, ele não quer dizer “somente” como uma mera ênfase. Como frequentemente acontece nos discursos de Latour, o mundo pequeno carrega aqui o maior dos significados. Neste caso, um simples advérbio implica pelo menos três principais consequências para a prática de ciências sociais.

A primeira consequência de “somente” é que, assim como dissemos na introdução, a cartografia social não requer qualquer teoria específica ou metodologia. Esta reivindicação precisa ser explicada: “somente observar” não significa que os pesquisadores são proibidos de empregar teorias pré-determinadas e metodologias. Pelo contrário, quando não impõe qualquer filosofia específica ou procedimento, a cartografia das controvérsias convida estudiosos a usar todas as ferramentas de observação à mão, assim como misturá-las sem restrição. Pelo menos no começo da exploração, os cartógrafos devem fazer qualquer esforço para permanecer o mais aberto possível a novas interpretações. Surpresa e curiosidade deve inspirar suas noções e protocolos mais do que qualquer outra coisa. Na cartografia social, a observação sempre vem antes da teoria e metodologia.

A segunda consequência de “somente” é de que os pesquisadores não intencionam ser imparciais só porque eles seguem alguma orientação teórica e metodológica. De acordo com as cartografias das controvérsias, as perspectivas dos pesquisadores nunca são neutras. Alguns pontos de vistas podem oferecer um claro e largo panorama, mas nenhuma observação pode escapar de sua origem. Nem a teoria, nem a metodologia podem fornecer pesquisadores com certo ponto de vista objetivo. A objetividade pode ser seguida somente pela multiplicidade de pontos de observação. Quanto mais numerosas e parciais são as perspectivas a partir do qual um fenômeno é considerado, mais objetivas e imparciais são as observações. É por essa razão que a cartografia das controvérsias recusa o envolvimento com uma única filosofia ou protocolo, e incentiva, ao contrário, múltiplas teorias e metodologias.

A terceira consequência de “somente” é que os pesquisadores são obrigados a reconsiderar suas atitudes no que diz respeito aos seus objetos de estudo. A cartografia das controvérsias implicam a razoável, mas subversiva ideia, de que participantes de um fenômeno social podem ser tão informados quanto os investigadores externos. Afinal, atores são constantemente inseridos nos problemas que estudiosos enfrentam por um tempo limitado e de um ponto de vista externo. Negligenciar o ponto de vista dos atores e suas ideias só porque estas não se baseiam em teorias científicas e metodologias é no mínimo arrogante. Cartografias social devem ter um importante respeito pelos atores que eles observam. Eles devem ser suficientemente humildes para reconhecer que se tratando de religião, por exemplo, não existe melhor especialista do que os próprios crentes; no que diz respeito as artes, ninguém sabe mais do que artistas, críticos e diretores de museus; se tratando de doenças – médicos, acompanhantes e pacientes – são muito mais experientes do que sociólogos. O propósito da cartografia das controvérsias não é ensinar aos atores o que eles são, supostamente, incapazes de entender, mas aprender de seus pontos de vistas, como observar suas existências coletivas.

Vamos recapitulas as três consequências de “somente”, já que estes constituem os três mandamentos de observação sociológica de acordo com a cartografia de controvérsias:

1. você não deve restringir sua observação a uma única teoria ou metodologia.

2. você deve observá-la a partir do maior número de pontos de vistas diferentes possíveis.

3. você deve ouvir as vozes dos atores mais do que suas próprias presunções.

Tendo em conta de que os três significados de “somente” devem também prevenir os estudiosos de uma leitura errada: “Apenas observar” nada tem a ver com o mito de observação não mediada. Se a cartografia social recusa a monogamia teórica e metodológica, certamente não é para atingir clareza ascética, e sim para flertar com a confusão e complexidade. Privada da proteção de conceitos e protocolos, a observação não se constitui de forma pura. Pelo contrário, ela é aberta a todos os tipos de interferências e impurezas. Longe de ser uma substância destilada a partir do caos coletivo, o conhecimento científico é o resultado de o maior número de contaminações possíveis.

Tal é a lição de “somente”: dispositivos de observação são mais valiosos quanto deixam aqueles que são observados interferirem naqueles que observam.

Leitores devem começar a entender o motivo pelo qual o conceito e processo minimalista da cartografia das controvérsias não irá tornar suas vidas mais fácil. Colocar a observação antes da teoria e metodologia nunca significou um fácil processo para os pesquisadores. Se Latour selou o “apenas” com a “observação”, isso foi para prevenir os estudantes de reduzir a investigação a partir de uma única teoria e metodologia. Na cartografia das controvérsias, todos os conceitos e protocolos merecem consideração, especialmente se eles são originados dos próprios autores. Todos os atalhos declinaram, a observação é obrigada a ser tão rica e complexa quanto os seus objetos. 

Texto original: Download texto inglês

TommasoVenturini_largeTommaso Venturini é professor e coordenador das atividades de pesquisa do Sciences.Po Medialab. Leciona disciplinas como Mapeamento de controvérsias, Métodos Digitais e Jornalismo de Dados. http://www.medialab.sciences-po.fr