How to build rich observation devices – Tommaso Venturini (parte 6)

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Última parte do artigo do Tommaso Venturini- Diving in Magma. Tradução Livre Como construir um valioso dispositivo de observação Bruno Latour e a Teoria Ator-Rede são frequentemente acusados de não tomarem posição sobre os problemas que estudam, sendo, dessa forma, politicamente ingênuos (por acreditarem que as ciências sociais poderiam observar e descrever sem a interferência com seus objetos) ou cínicos (acreditando que as ciências sociais não podem influenciar a vida social). O que dissemos sobre “apenas observar as controvérsias” pode de alguma forma confirmar tais críticas. A multiplicação de atores e perspectivas, pontos de vistas e argumentos, pode ser confundida com um recurso para evitar obrigações. Não é esse o caso: a Teoria Ator-Rede nunca tentou evitar suas responsabilidades e nunca questionou o fato de que as ciências sociais podem e devem contribuir para o debate público. O problema é: qual a contribuição que ela deve dar e como isto deve ser feito? De acordo com a ANT, o papel que a pesquisa deve desempenhar em disputas coletivas não é o de orientar o seu debate. Atores (não os estudiosos) são responsáveis por decidir as controvérsias. Mais uma vez, é uma questão de respeito. Controvérsias pertencem aos atores: atores que semearam suas sementes, que levantaram os seus rebentos, que alimentaram o seu desenvolvimento. Estudiosos não têm o direito de entrar e impor suas soluções. Pesquisadores podem certamente expressar suas ideias e as cartografias sociais os motiva a fazê-lo. Ainda assim, na exibição de suas opiniões, eles devem prestar a máxima atenção para não a escondê-la dos outros. Diferente da maior parte das abordagens sociais, a cartografia das controvérsias não se vangloria da imparcialidade – ela só exige que seus praticantes apresentem outras parcialidades além de sua própria. Cartógrafos sociais não pretendem encerrar controvérsias, mas mostrar que elas podem ser debatidas em muitas diferentes maneiras. Seu propósito não é silenciar a discussão em nome da “Verdade Científica”, mas mostrar que muitas outras verdades merecem ser ouvidas. É verdade: a ANT é muitas vezes hesitante quando se trata de tomar uma posição, mas essa hesitação não vem da ingenuidade ou cinismo. Ela vem do medo de encurtar o debate antes dele ter o tempo de explorar completamente suas riquezas, de inserir uma interpretação antes que todos os atores pudessem ter a chance de expressar as suas próprias opiniões. Aqueles que estudam as controvérsias têm visto muitos cosmos opostos, muitas definições contraditórias de problemas e soluções, para acreditar que podemfacilmente nos dizer quem está certo ou errado. Cartógrafos sociais sabem que os problemas são sempre muito complicados, sutis e em constante mudança para ser cortado como um nó górdio. A contribuição mais digna que a observação cartográfica pode dar a discussão coletiva não é reduzir a sua complexidade, mas se certificar de que ela continua sendo suficientemente complexa para que cada voz seja ouvida. É claro, esta é apenas a metade da história. Como dissemos, a vida social flui como magma em um duplo movimento de liquefação e solidificação. Quando observamos controvérsias, focamos no estado líquido, pois só brigas, disputas, lutas e novos atores podem fazer o seu caminho para a superfície da sociedade. Quando descrevemos as controvérsias, contribuímos para a solidificação de algumas partes do magma social reduzindo sua complexidade a um nível administrável. Ambas tarefas são igualmente importantes e intimamente ligadas na prática da cartografia social (bem como nos fenômenos coletivos). Entretanto, observar e descrever não deve ser confundido por ter diferente propósitos e consequências. Bruno Latour discutiu uma similar distinção no livro dedicado a Política da Natureza (“Politics of Nature” – 2004d, especially pp. 108-116). Enquanto redefiniu o processo político na coletividade contemporânea, Latour introduziu quatro recomendações que podem ser facilmente estendidas a prática de mapeamento social. “Primeiro requisito: Você não deve simplificar o número de proposições a serem levadas em conta na discussão. Perplexidade. Segundo requisito: Você deve ter certeza de que o número de vozes que participam da articulação da proposição não é arbitrariamente um curto-circuito. Consulta. Terceiro requisito: Você deve discutir a compatibilidade de novas propostas com aquelas que já estão instituídas, de tal forma forma a mantê-las no mesmo mundo comum que lhes dará o seu lugar legítimo. Hierarquização. Quarto requisito: Uma vez que a proposição tenha sido instituída, você não deve mais questionar a legitimidade de sua presença no cerne da vida coletiva. Instituição.” (p.109) Não há nada particularmente original nesses requisitos. Nenhuma investigação séria em ciências sociais poderia ser feita sem a observação da complexidade da vida coletiva e da simplificação através das descrições. O que é inovador não é reconhecer a existência desses dois conjuntos de etapas, mas revelar sua contradição – pois há uma evidente contradição entre explorar a riqueza infinita da paisagem social e desenhar um mapa para fazer tal paisagem palpável. Cartógrafos não devem esquecer que sempre que traçam um debate perdem parte de sua vitalidade e interesse: uma escolha inevitável, é claro, e continua não sendo tomada como atrativa.  É por isso que é importante não confundir observação e descrição e também o porquê de nós decidirmos deixar o terceiro e quarto requisito (Hierarquização e Instituição) para um próximo artigo. Quanto aos requisitos de perplexidade e consulta, eles condensam tudo que dissemos sobre observação das controvérsias. Quando se trata de avaliar o trabalho de observação de seus alunos, Bruno Latour premia a articulação (a habilidade de “ser afetado por diferenças”) muito mais do que precisão e consistência. Observar a controvérsia é como a criação de um observatório científico: a qualidade da observação depende da capacidade de multiplicar o número e o aumento da sensitividade de dispositivos de monitoramento. Somente pela acumulação de notas, documentos, entrevistas, pesquisas, arquivos, experimentos, estatísticas, os pesquisadores podem se esforçar para não reduzir a riqueza incrível de vida coletiva. É claro, isto tornará a interpretação muito mais difícil, complicará o trabalho de representação, retardará a construção de um cosmos compartilhado. Mas, ainda assim, não existe outra forma de fazer tal construção em um empreendimento democrático, nem outra maneira de garantir que todos os atores e redes tenham justa possibilidade de participar de existência coletiva: “O desejo ardente de ter novas entidades detectadas, acolhidas e com devido abrigo, não só é legítimo como é provavelmente a única causa científica e política pela qual vale a pena viver” (Latour, 2005:. p. 259). Longe de evitar seus compromissos, a cartografia de controvérsia toma a mais forte posição política: não apenas mudar o mundo, mas dar aos outros a chance de fazê-lo. TommasoVenturini_large Tommaso Venturini é professor e coordenador das atividades de pesquisa do Sciences.Po Medialab. Leciona disciplinas como Mapeamento de controvérsias, Métodos Digitais e Jornalismo de Dados. http://www.medialab.sciences-po.fr

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