Five observation lenses – Tommaso Venturini (parte 5)

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Tradução Livre

Cinco lentes de observação

Depois de escolher a controvérsia, os estudiosos podem começar sua campanha de observação. Mais uma vez, é importante falar que a prioridade dada a observação não deve ser mal interpretada, como já explicamos, na cartografia social, ela nunca é uma busca pelo ponto de vista final. Longe de procurar por uma visão purificada, a cartografia das controvérsias está sempre interessada nas múltiplas interferências e contaminações. Para ensinar estudiosos a mudarem suas perspectivas, uma série de lentes de observações foram criadas durante esses anos de estudo. Como lentes intercambiáveis de uma câmera ou microscópio, essas lentes são avisos para a observação – muito mais do que orientações metodológicas. O objetivo não é que você nos conte o que observa, e sim focar a visão em diferentes camadas da controvérsia. As lentes não são obrigatórios nem exaustivas – elas apenas nos lembram de que a observação minuciosa é impossível sem a sobreposição de uma variedade de camadas.

1. De afirmações a literaturas. Ao se aproximar de qualquer controvérsia, a primeira impressão geralmente é a de uma névoa caótica de afirmações concorrentes. Vamos considerar, por exemplo, o debate sobre os organismos geneticamente modificados. Tal disputa ilustra como as controvérsias podem funcionar como geradores de discussões nas quais – quando se trata de GMOs (Genetically Modified Organism – Organismos geneticamente modificados), em particular – não há praticamente nada em que atores concordam. Cada nova confirmação, não importando quão marginal ou técnica, gera uma nova avalanche de respostas e discussões. Uma borboleta monarca (ou não) batendo suas asas em Ithaca pode, literalmente, começar um tornado por todo o mundo. Iniciando o estudo das controvérsias das GMOs, deixamos o terreno estável de crenças estabelecidas para entrar em um profundo campo de batalha onde nada pode ser dado como certo sem o crescimento de uma tempestade de menções negativas e alternativas. Identificar a extensão do campo da controvérsia, no entanto, é apenas o primeiro passo em direção à cartografia social. Embora com o conhecimento sobre a natureza caótica das controvérsias, cartógrafos devem também reconhecer a existência de uma densa rede de relações entre as declarações que circulam em uma disputa. Um afirmação como: “GMOs não devem ser testadas em campos abertos” não é uma afirmação isolada, mas o centro de uma vasta rede de declarações relativas a polinização cruzada, a poluição genética, a biodiversidade, ao princípio da precaução e assim por diante. A primeira tarefa do cartógrafo social é mapear essa rede de referência, revelando como discursos dispersos são entrelaçados em literaturas articuladas. Graças a bibliografia e ferramentas de métricas sociais, essas estruturas textuais são particularmente fáceis de serem registradas como ciência e tecnologia. No entanto, literaturas existem em todos os domínios sociais e inspiram a cada debate coletivo. Para ser exato, literaturas reais nada tem nada a ver com as imagens bem organizados e ordenadas, muitas vezes fornecidas por manuais e antologias. Especialmente quando se refere a problemas das controvérsias, bibliografias são dinâmicas e disputadas como as próprias controvérsias. Porém, elas constituem um primeiro nível de articulação que a cartografia social deve ser capaz de destacar.

2. Da literatura aos atores. Seguindo as redes de relações que circundam as  controvérsias declarações, cartógrafos sociais são inevitavelmente levados a considerar as conexões que se espalham além dos limites do universo. Além de ser conectada a outras reivindicações, as afirmações são sempre parte de grandes redes que compõem os seres humanos, objetos técnicos, organismos naturais, entidades metafísicas e assim por diante. Na Teoria Ator-Rede e na cartografia das controvérsias, nos referimos a todos esses seres como o termo genérico de “atores”. O significado de tal termo é, naturalmente, o mais amplo: um ator é qualquer coisa fazendo algo. Esta definição é de certa forma tautológica, mas ela aparece com o teste prático: quando você quer saber se algo está atuando em uma controvérsia, apenas pergunte-se se a sua presença ou ausência faz alguma diferença. Se faz alguma diferença e se ela é percebida pelos outros atores, então ele é um ator. Vamos voltar aos exemplos do GMOs: há cerca de dez anos, ninguém suspeitava que borboletas-monarcas poderiam ser atores cruciais na controvérsia da biotecnologia. Em 1999, entretanto, alguns cientistas da Universidade de Cornell publicaram os resultados do experimento mostrando que as lagartas-monarcas poderiam ser severamente ameaçadas por cultivos transgênicos. Essa novidade gerou uma onda de protestos contra os alimentos geneticamente modificados e várias autorizações foram bloqueadas devido ao princípio de precaução. E de repente, a presença das borboletas-monarcas (quase não notada até então) começou a fazer uma grande diferença no debate dos GMOs – borboletas se tornaram o ator da controvérsia. A história das borboletas-monarcas são instrutivas porque convidam os cartógrafos social a dedicarem uma maior atenção a todos os atores envolvidos, não importando se eles são humanos, animais, artefatos ou qualquer outra coisa. Tudo pode ser um ator desde que ele faça alguma diferença.

3. De atores as redes. Introduzindo a metáfora do magma, já explicamos como, de acordo com a ANT, não existe um ator isolado. Atores são sempre as interfaces entre os diferentes coletivos sociais enquanto ambos são composto e componentes de redes. Considere qualquer cultivo de biotecnologia: cada semente única transgênica é o resultado de um coordenado trabalho de uma extensa rede feita de protocolos científicos, campos de triagem, investimentos em pesquisas, instrumentos técnicos e patentes industriais. Ao mesmo tempo, cada pequena semente contribui para uma rede mais ampla que reúne corporações globais, laboratórios científicos, organizações de ativistas, a legislação nacional e internacional. Contemplar os GMOs isoladamente, esquecendo todo o trabalho que fazem e o porque eles são feitos, é a receita mais segura para incompreensão. Atores são tais porque eles interagem, moldando relações e sendo alterados por elas. Cartógrafos sociais não devem ignorar esse dinamismo relacional: observar controvérsias é perceber o incessante trabalho de fazer e desfazer conexões. Nas próprias palavras de Latour “Estar conectado, estar interconectado, ser heterogêneo, isto não é suficiente.Tudo depende do tipo de ação que está fluindo de um para o outro, daí as palavras ‘rede’ e ‘trabalho’. Realmente, deveríamos falar “trabalho em rede” ao invés de “rede de trabalho”. É o trabalho, o movimento, o fluxo, e as alterações que devem ser enfatizados” (2004a, p. 63).

4. Das redes aos cosmos. A ênfase que colocamos em redes dinâmicas não deve levar ao esquecimento de que a maioria dos atores e grupos aspiram algum tipo de estabilidade. Poucos atores estão interessados ​​em desestabilizar as redes sociais existentes apenas por uma questão de caos. Se você estabelecer uma cruzada contra a cultura de transgênicos, é provavelmente porque você é inclinado a agricultura orgânica; se luta contra a modernização, há chances de que você seja tradicional; se sabota o sistema global, é um potencial partidário das comunidades locais. Mesmo anarquistas têm imagens da sociedade que gostariam de estabelecer, mesmo os oportunistas têm utopias. O fato das controvérsias tornarem a existência coletiva mais e mais complexa não significa que aqueles que lutam contra ela não são levados por um desejo de simplificação. Aqueles que apoiam a disseminação de GMOs nos países em desenvolvimento, por exemplo, estão perfeitamente conscientes de que eles irão atrapalhar a organização tradicional das comunidades rurais. Ainda assim, eles continuam acreditando que a inovação tornará sistemas agrícolas mais eficientes e mais fortes. Sim, algumas antigas tradições agrícolas serão esmagadas, mas no desenvolvimento econômico a longo prazo o progresso técnico originará sociedades melhores. De forma análoga mas oposta, ativistas denunciam as falhas da agricultura industrial que são frequentemente inspiradas pelas visões românticas da vida tradicional no campo. A importância dessas ideologias não devem ser subestimadas. Claro que eles não têm nada a fazer com o atual magma da existência coletiva, mas isso não significa que eles não podem afetá-la. Ideologias não são destinadas a serem uma descrição do mundo como ele é, mas visões do mundo de como ele deve ser. Enquanto vidas coletivas são caóticas e excêntricas, ideologias são ordenadas e harmoniosas: não existe universo, mas cosmos. Como tal, ideologias podem ser mais influentes que qualquer cálculo realista. Observação, portanto, não pode ser limitada a afirmações, ações e relações, mas deve ser estendida ao significado que atores atribuem a ela. Somente atravessando de cosmos a cosmos é que cartógrafos social podem perceber a completa extensão de suas controvérsias.

5. Dos cosmos a cosmopolítica. A última camada da nossa lista é de longe o item mais complicado. Para entendê-los é necessário abandonar uma das mais adoradas ideias da cultura ocidental: a crença de que, por trás de toda ideologia e controvérsia, deva existir alguma realidade objetiva independente do que os atores pensam ou falam sobre isto. De acordo com essa ideia (que pode retornar a caverna de Platão), tanto ideologias quanto controvérsias origem de uma imperfeição na inteligência humana. Muitos vieses, interesses, ilusões e preocupações distorcem a visão subjetiva do mundo, tanto que homens são levados a acreditar que vivem em diferentes cosmos e que devem lutar por eles. Se todo homem pudesse ver a realidade como ela realmente é, de forma pacífica e racional, negociariam sua existência coletiva. Além de ser muito centrada no homem (esquecendo que nem todos os atores sociais são seres humanos), essa ideia tem uma grande desvantagem: ela frequentemente acaba justificando o absolutismo. Assim que o último substrato de verdade é postulado, atores começam a reivindicar pelo acesso privilegiado a isso. Através da filosofia, religião, arte, ciência ou tecnologia a realidade pode finalmente ser revelada e todo mundo irá finalmente concordar (mesmo se gostar ou não). Infelizmente (ou melhor felizmente), não importa o quão confiante esses profetas possam parecer, nem todo mundo eventualmente concorda. Esta é uma das lições cruciais da cartografia das controvérsias. Escolha qualquer filosofia, religião, artes, ciências ou verdade técnica e você vai encontrar uma controvérsia. As vezes disputas são temporariamente silenciadas pelo fato de alguns cosmos se prevalecerem sobre os atores pelo fato destes terem encontrado um compromisso de resistir, mas nenhum acordo, nenhuma convenção, nenhuma realidade coletiva já surgiu sem discussão. Isto não significa que nós nunca poderíamos habitar um mundo com paz, de que nós nunca poderíamos alinhar nossas visões ou que nunca poderíamos concordar com a verdade. Um mundo comum é possível, mas não como “algo que venha a reconhecer, como se tivesse sido sempre aqui (e não tínhamos até agora percebido). Um mundo comum, se um dia existir um, é algo que iremos construir, com unhas e dentes, juntos”.

TommasoVenturini_large

Tommaso Venturini é professor e coordenador das atividades de pesquisa do Sciences.Po Medialab. Leciona disciplinas como Mapeamento de controvérsias, Métodos Digitais e Jornalismo de Dados. http://www.medialab.sciences-po.fr

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