Choosing a good controversy – Tommaso Venturini (parte 4)

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Tradução livre

Escolhendo uma boa controvérsia

Embora cada fenômeno coletivo possa ser observado como uma controvérsia, não são todos que fornecem um bom objeto de estudo. Quando começamos a mapear um projeto, a primeira coisa a ser escolhida é sempre qual controvérsia será analisada. Uma escolha satisfatória torna a investigação interessante e realizável e uma errada levará ao fracasso. Infelizmente, não existe nenhuma instrução exata de como selecionar uma boa controvérsia, tudo que podemos fornecer são algumas recomendações para que se possa evitar as ruins.

1. Evite controvérsias frias. Como dissemos, nós podemos chamar de controvérsias qualquer coisa entre uma recíproca indiferente e plena harmonia. Controvérsias são ainda melhor observadas quando chegam ao auge do seu debate. Se não existe debate ou este é apático, se todos os atores concordam com as questões principais e estão dispostos a negociar em favor da minoria, então aí não existe uma autêntica controvérsia e o resultado da cartografia será entediante ou parcial. Boas controvérsias são sempre “quentes”: elas podem envolver números limitados de atores, mas devem ter alguma ação em desenvolvimento.

2. Evite controvérsias antigas. Problemas devem ser estudados quando eles são notáveis ou caso não apresentem nenhum solução. Uma vez que o acordo mútuo seja alcançado e a solução seja imposta ou aceita de alguma outra forma, controvérsias perdem rapidamente todo o interesse. Problemas passados devem ser investigados somente se a observação consiga retornar para o momento no qual a controvérsia perdeu o valor.

3. Evite controvérsias ilimitadas. Controvérsias são complexas e, se são vívidas e abertas, tendem a se tornar mais e mais complexas ao ser acrescentados novos atores e problemas. Ao selecionar seu caso de estudo, seja realista e ciente do trabalho que tem em mãos. Mapear grandes debates, tal como o aquecimento global ou a modificação genética de organismos, requer grandes quantidades de tempo e trabalho. Como uma regra geral, quanto mais uma controvérsia se restringe a um assunto específico, mais fácil ela será de ser analisada.

4. Evite controvérsias profundas. Para uma controvérsia ser observável, ela tem que ser, pelo menos parcialmente, aberta ao debate público. Questões confidenciais ou classificadas, bem como grupos sectários ou maçônicos, podem expor a cartografia social ao risco de deriva em direção às teorias da conspiração. O problema não é que poucos atores estão envolvidos nestas controvérsias, mas que essas figuras tenham uma atitude reservada. A cartografia das controvérsias foi desenvolvida para mapear espaços públicos e se sai mal quando é aplicada em espaços secretos.

Depois desta lista de recomendações negativas, há, pelo menos, uma sugestão positiva que estudiosos podem considerar: preferir as controvérsias sobre questões científicas ou técnicas. Contar com essa preferência exigiria um longo desvio na Teoria Ator-Rede (que nós preferimos não seguir neste artigo). Vamos apenas dizer que a cartografia das controvérsias foi amplamente desenvolvida devido à crescente dificuldade em separar ciência e tecnologia dos outros domínios sociais. Considere as principais controvérsias que causam problemas a sociedade: os desequilíbrios da industrialização, o esgotamento de recursos naturais, as crises ecológicas, os dilemas bioéticos e assim por diante. Todas essas disputas giram em torno de problemas técnocientíficos, ofuscando a fronteira entre ciência e política, cultura e tecnologia, moral e economia. A configuração da existência da vida coletiva moderna repousa sobre a contribuição de atores científicos e técnicos. Vírus, mísseis balísticos, índices de bolsa de valores, plantações, cromossomos, camadas de ozônio, embriões e ecossistemas – todos esses atores (junto com seus engenheiros e cientistas associados) entraram em nossa sociedade e não foram embora. Poucas coisas na nossa sociedade podem ser entendidas sem levar em conta a ciência e a tecnologia.

A cartografia das controvérsias foi criada como um conjunto de ferramentas para lidar com essa crescente hibridização, como um esforço de seguir disputas quando estas atravessam fronteiras disciplinares. Cartógrafos sociais devem estar prontos para impulsionar sua investigação muito além dos limites da sociologia e não somente em direção às ciências humanas vizinhas, mas também em direção a muito outros domínios das ciências naturais. Ao questionar sobre o debate da célula tronco, por exemplo, os sociólogos não podem evitar os problemas biológicos e médicos da questão. Quais doenças podem ser curadas com o tratamento de células-tronco; como a pesquisa sobre o método é financiada e organizada; as células-tronco podem ser extraídas de tecidos adultos; qual é a disponibilidade de estoque de células-tronco a partir de embriões fertilizados in vitro – longe de ser minúcias técnicas, estas questões estão no cerne da cartografia das controvérsias e merecem grande atenção.

Se querem compreender debates modernos, cartógrafos não têm outra escolha senão “mergulhar” nos detalhes tecnocientíficos, não importando quão profundo esse possa ser. Esta cuidadosa atenção ao tecnicismo é frequentemente atribuída como a principal dificuldade da cartografia das controvérsias. Mas este é raramente o caso. Por mais estranho que parece ser, a didática da cartografia social provou que quanto mais técnica uma controvérsia é, mais fácil ela será de ser observada. Várias razões apontam para esse aparente paradoxo: problemas científicos são geralmente mais limitados, melhor documentado e mais aberto e organizado para a discussão. Mesmo o formalismo científico, uma vez dominado, se torna muito mais uma ajuda do que um obstáculo. É por isso que recomendamos escolher controvérsias que são diretamente centralizadas na ciência e tecnologia. Como não há maneira de evitar complicações técnico-científicos, estudiosos também devem centralizar suas investigações sobre elas. Ao contrário da primeira impressão dos estudiosos, isto tornará a observação mais fácil e interessante.

 

TommasoVenturini_largeTommaso Venturini é professor e coordenador das atividades de pesquisa do Sciences.Po Medialab. Leciona disciplinas como Mapeamento de controvérsias, Métodos Digitais e Jornalismo de Dados. http://www.medialab.sciences-po.fr

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