The magmatic flow of collective life – Tommaso Venturini (parte 3)

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Tradução livre

O fluxo magmático da vida coletiva 

Depois de tudo que dissemos sobre a “cartografia social” e a não-simplificação de “somente observar”, leitores podem parecer tentados à abandonar este artigo e o método da cartografia das controvérsias. Este é um sentimento legítimo. Como uma conversa entre Pinóquio e o grilo falante, a cartografia de Latour não tem nada a prometer se não complicações e dificuldades. Para o estudioso que está se afogando na areia movediça da complexidade social, a cartografia das controvérsias rejeita qualquer ajuda e recomenda aos mesmos, ao contrário, que nadem neste mar.

Não é de se admirar que leitores se sintam um pouco desmotivados a entrar neste mar. Ainda assim, antes de traduzir a conversa do “grilo falante” e despedaçar este artigo, deixe-me listar um par de razões para que você possa considerar a complexidade sob uma luz menos sombria.

Em primeiro lugar, se a cartografia das controvérsias é complexa, é porque a própria vida coletiva assim parece ser. Você alguma vez já tentou montar uma banda de rock? organizar um campeonato de xadrez? criar uma associação de observadores de pássaros? compartilhar um apartamento ou um carro? Se você tem ou participa de qualquer outra ação coletiva, deve ter aprendido que coordená-las pode ser difícil. Situações coletivas são sempre complexas e se mais atores estão interessados fica ainda mais difícil de entendê-las (especialmente se atores não humanos estão envolvidos). Não é a cartografia da controvérsia que complica algo simples, são as outras abordagens que simplificam algo complexo. Como pesquisadores sociais, devemos estar pelo menos prontos para lidar com tanta complexidade como os atores que observamos.

Porém é melhor ter cuidado. Não estamos dizendo que a vida social é inevitavelmente caótica e portanto impossível de interpretar. Nem afirmamos que a complexidade é tal que não existe estabilidade, ordem e organização. Apesar de todas as voltas e reviravoltas, há sentido em existências coletivas (mesmo que não seja claro, único ou simples). Atores são constantemente forçados a reduzir a complexidade de suas interações, depois de todas bandas formadas, torneios organizados, associações criadas e coisas compartilhadas. Simplificações são possíveis. E cada simplificação coletiva precisa de trabalho para ser construída e mais ainda para ser mantida. Considere esta como a mais natural distinção social: a oposição entre o que está dentro e fora de um grupo. De insetos sociais a sociedade modernas, enormes quantidades de pesquisas são constantemente mobilizadas para preservar tais fronteiras. Pessoas e objetos dedicam sua existência para dar sentido a distinções internas e externas – pergunte aos guardas de prisão, porteiros, seguranças, muros, cercas e barreiras (nós retornaremos a esta questão no próximo artigo). No momento, vamos apenas dizer que: se a cartografia social exige um árduo trabalho, é porque a própria vida social é feita de um duro trabalho. Alegar ter fácil acesso a simplicidade, enquanto os atores estão lutando constantemente para gerenciar a complexidade, seria no mínimo desrespeitoso.

Em segundo lugar, embora árduo e complexo, controvérsias continuam sendo a melhor situação disponível para observar o mundo social. Por razões que se tornarão claras em nosso artigo seguinte, a cartografia das controvérsias é completamente construtivista. De acordo com essa abordagem, nada pode atingir a vida coletiva a não ser o resultado de um trabalho conjunto, e controvérsias são as configurações onde esse trabalho se torna mais visível. Imagine que você esteja interessado em entender um técnica construtiva, por exemplo, como assar um bolo. Conhecer os ingredientes certamente seria útil, assim como degustar o bolo, assim que ele estivesse pronto. Ainda assim, nem os ingredientes, nem o bolo pronto são o suficiente para desvendar a sua preparação. Para aprender como assar um bolo, você deverá entrar na cozinha e observar o cozimento em ação. Mesmo assim, se cozinheiros trabalham a toda velocidade sem explicar o que estão fazendo, então você terá um duro trabalho para entender o que se passa ali. De qualquer forma, se cozinheiros começam a discordar da medida dos alimentos, disputar sobre a ordem das operações, discutir sobre o tempo de cozimento, então é aí que você poderá realmente aprender algo sobre bolos. A mesma situação é verdadeira para vida coletivas. Para entender como o fenômeno social é construído, não é suficientemente eficaz observar os atores sozinhos e nem observar as redes sociais uma vez que elas estão estabilizadas. O que deve ser observado são as redes de atores, ou seja, as efêmeras configurações nas quais os atores refazem os antigos laços e a emergência de novas redes que surgem redefinindo a identidade dos atores. Essas configurações constituem o objeto da Teoria Ator-Rede, assim como o da cartografia das controvérsias.

De acordo com Bruno Latour, o social não pode ser estudado, seja no seu formato sólido (as redes estabilizadas) ou no seu formato líquido (atores isolados): “Em ambos casos, o social desaparece. Quando é tomado como sólido, perde a capacidade de associação; ao ser tratado como líquido, o ganho social desaparece porque ele surge apenas por um instante, somente no momento passageiro quando novas associações estão se fixando a vidas coletivas.” (2005, p.159). Para observar a construção do social, estudiosos não têm outra saída senão mergulhar nas controvérsias, não importando quão difícil e perigoso possa parecer. Controvérsias são complexas porque elas são cruciais onde a vida coletiva é fundida e estabelecida: elas são sociais no seu estado magmático. De acordo com a definição do Dicionário “Brittanica”, magma é um fluido de “uma rocha praticamente derretida”, a configuração dessa rocha é sólida e líquida ao mesmo tempo, exatamente como a cartografia das controvérsias. Mas há mais a ser acrescentado a essa metáfora: o que é mais interessante no magma é que estados sólidos e líquidos existem em uma transformação mútua incessante. Por um lado, a rocha sólida tocada pelo calor do fluxo derrete e se torna parte dele. Por outro, nas margens do fluido, a lava resfria e cristaliza.

A mesma dinâmica pode ser observada nas controvérsias, a mesma variação entre diferentes estados de solidez. Através desta dinâmica o social é incessantemente construído, desconstruído e reconstruído. Este é o social em ação e este é o porque de nós não termos outra opção se não mergulhar no magma.

TommasoVenturini_largeTommaso Venturini é professor e coordenador das atividades de pesquisa do Sciences.Po Medialab. Leciona disciplinas como Mapeamento de controvérsias, Métodos Digitais e Jornalismo de Dados. http://www.medialab.sciences-po.fr

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