Diving in Magma – Tommaso Venturini (parte 1)

Padrão

Tradução Livre: Priscilla Calmon

“Mergulho no Magma”

Como explorar controvérsias com a Teoria Ator-Rede

Versão preliminar

A cartografia das controvérsias é um conjunto de técnicas para explorar e visualizar problemas. Este método foi desenvolvido por Bruno Latour como uma versão didática da Teoria Ator-Rede para preparar estudantes universitários na investigação do debate sócio-técnico contemporâneo. O escopo e interesse de tal cartografia, entretanto, excede a didática original. Adotado e desenvolvido em várias universidades da Europa e Estados Unidos, a cartografia das controvérsias é hoje um método de pesquisa completo, embora, infelizmente, não tão bem documentado. Para preencher essa falta de documentação, nós traçamos nossa experiência, com apoio pedagógico de Latour, para introduzir algumas das principais técnicas de cartografia social e suas ferramentas. Em especial, nessas páginas, iremos focar na exploração, deixando a discussão da visualização em outro artigo.

Aviso: a cartografia das controvérsias não irá tornar sua vida mais fácil

A cartografia das controvérsias é o exercício de elaboração de dispositivos para observar e descrever o debate social, especialmente – mas não exclusivamente-  em torno dos problemas tecnocientíficos. Este trabalho foi iniciado por Bruno Latour na “École des Mines de Paris” há alguns anos atrás e é atualmente discutido em várias universidades europeias e americanas. Recentemente, a cartografia das controvérsias também tem se tornado objeto do consórcio financiado pela União Europeia, MACOSPOL (Mapping Controversies in Science and technology for Politics), que reúne oito universidades europeias e centros de pesquisa.

Desde a introdução, a cartografia das controvérsias de certa forma serviu como uma versão educacional da Teoria Ator-Rede (ANT). Como o ANT, este é o método de “viver, conhecer e praticar nas complexidades de tensão” (Law, 1999:12). Ao contrário da ANT, ela evita complicação conceituais sendo assim mais acessível aos estudantes. Com alguma aproximação, nós podemos descrever a cartografia das controvérsias como a prática da Teoria Ator-Rede sem o peso de todas as sutilezas teóricas. Como tal, a cartografia das controvérsias pode atrair aqueles que estão intrigados pela ANT,  mas a julgam como uma difícil implicação filosófica. Concentrando na prática de mapeamento e com os problemas conceituais esclarecidos, estudantes e pesquisadores podem esperar reduzir a ANT para uma versão mais próxima do usuário.

A princípio, a cartografia das controvérsias parece desapontar essas expectativas. Quando lhe pediram para soletrar as instruções de sua cartografia, Bruno Latour respondeu com uma indiferente encolhida de ombros: “basta olhar a controvérsia e me dizer o que você vê”. Tal definição é frequentemente recebida com algum ceticismo e não sem alguma razão. Se a cartografia de Latour é nada mais que “observar e descrever”, não é só a Teoria Ator-Rede que está sendo colocada de lado, mas praticamente qualquer teoria social assim como qualquer metodologia social. De fato, por mais suspeito que isso possa parecer, o mapeamento de controvérsias não implica em alguma suposição conceitual ou requer certo tipo de protocolo metodológico. Não existe nenhuma definição para aprender, nenhuma premissa para seguir, nenhuma hipótese para demonstrar, nenhum procedimento para seguir, nem correlação para ser estabelecida. Pesquisadores não são questionados sobre a explicação do que estão estudando e sim pelo que vêem na controvérsias e a descrição sobre o que está sendo visto. Como animais de zoológico recém nascidos e soltos na selva, estudantes iniciantes no método das cartografias reportam espanto e euforia.

Euforia, entretanto, não dura muito. Apesar de sua teoria e metodologia minimalista, a cartografia das controvérsias não é um pedaço de bolo (como estudantes descobriram com desapontamento assim que eles começaram seus testes). Longe de ser uma simples versão da ANT, cada pedaço da cartografia das controvérsias vem a ser árduo e complexo. O que parece ser, em teoria, que a mais simples demanda termina sendo, na prática, o mais difícil exercício. “Somente observar e descrever as controvérsias” – nada mais, exceto por dois pequenos problemas: “somente” e “controvérsias”.

Aqueles que buscam por uma diretriz do tipo “leia e siga as instruções” ficarão desapontados. A combinação de “somente” e “controvérsias” faz da cartografia social tão complexa quanto a Teoria Ator-Rede, talvez até mais. É por isso que nós escolhemos começar esse artigo com um alerta: ao contrário da maioria das técnicas de pesquisa, a cartografia das controvérsias nunca quis significar uma fácil investigação, mas torná-la mais lenta e difícil. Entre o parênteses de “somente” e “controvérsia”, a operação mais fácil (tal como observar e descrever) se torna o maior dos aborrecimentos. Documentando a cartografia das controvérsias, nós temos pouco a oferecer ao outro do que uma longa lista de dificuldades – tanto, de fato, que decidimos dividir em dois artigos. Nas próximas páginas, iremos mostrar como “somente” e “controvérsia” colocam a simples observação dentro de um grande problema. Em mais uma artigo, iremos focar na descrição, mostrando como a cartografia se torna extremamente difícil.

Para ter certeza, a distinção que nós traçamos entre observação e descrição é altamente artificial. É apenas por uma questão de clareza que iremos separar duas dimensões que são, de fato, perfeitamente entrelaçadas no exercício da cartografia. Distinguindo observação e descrição, não queremos retratar duas operações consecutivas (primeiro observar e então descrever). Observar e descrever controvérsias são sempre realizadas ao mesmo tempo. É importante também manter a distinção a fim de não confundir  a tarefa de implantar a complexidade das controvérsias (este artigo) com a tarefa de determinar a complexidade das mesmas (próximo artigo).

Os três significados de “somente”

Quando Bruno Latour orienta estudantes a “apenas observar” as vida coletivas, ele não quer dizer “somente” como uma mera ênfase. Como frequentemente acontece nos discursos de Latour, o mundo pequeno carrega aqui o maior dos significados. Neste caso, um simples advérbio implica pelo menos três principais consequências para a prática de ciências sociais.

A primeira consequência de “somente” é que, assim como dissemos na introdução, a cartografia social não requer qualquer teoria específica ou metodologia. Esta reivindicação precisa ser explicada: “somente observar” não significa que os pesquisadores são proibidos de empregar teorias pré-determinadas e metodologias. Pelo contrário, quando não impõe qualquer filosofia específica ou procedimento, a cartografia das controvérsias convida estudiosos a usar todas as ferramentas de observação à mão, assim como misturá-las sem restrição. Pelo menos no começo da exploração, os cartógrafos devem fazer qualquer esforço para permanecer o mais aberto possível a novas interpretações. Surpresa e curiosidade deve inspirar suas noções e protocolos mais do que qualquer outra coisa. Na cartografia social, a observação sempre vem antes da teoria e metodologia.

A segunda consequência de “somente” é de que os pesquisadores não intencionam ser imparciais só porque eles seguem alguma orientação teórica e metodológica. De acordo com as cartografias das controvérsias, as perspectivas dos pesquisadores nunca são neutras. Alguns pontos de vistas podem oferecer um claro e largo panorama, mas nenhuma observação pode escapar de sua origem. Nem a teoria, nem a metodologia podem fornecer pesquisadores com certo ponto de vista objetivo. A objetividade pode ser seguida somente pela multiplicidade de pontos de observação. Quanto mais numerosas e parciais são as perspectivas a partir do qual um fenômeno é considerado, mais objetivas e imparciais são as observações. É por essa razão que a cartografia das controvérsias recusa o envolvimento com uma única filosofia ou protocolo, e incentiva, ao contrário, múltiplas teorias e metodologias.

A terceira consequência de “somente” é que os pesquisadores são obrigados a reconsiderar suas atitudes no que diz respeito aos seus objetos de estudo. A cartografia das controvérsias implicam a razoável, mas subversiva ideia, de que participantes de um fenômeno social podem ser tão informados quanto os investigadores externos. Afinal, atores são constantemente inseridos nos problemas que estudiosos enfrentam por um tempo limitado e de um ponto de vista externo. Negligenciar o ponto de vista dos atores e suas ideias só porque estas não se baseiam em teorias científicas e metodologias é no mínimo arrogante. Cartografias social devem ter um importante respeito pelos atores que eles observam. Eles devem ser suficientemente humildes para reconhecer que se tratando de religião, por exemplo, não existe melhor especialista do que os próprios crentes; no que diz respeito as artes, ninguém sabe mais do que artistas, críticos e diretores de museus; se tratando de doenças – médicos, acompanhantes e pacientes – são muito mais experientes do que sociólogos. O propósito da cartografia das controvérsias não é ensinar aos atores o que eles são, supostamente, incapazes de entender, mas aprender de seus pontos de vistas, como observar suas existências coletivas.

Vamos recapitulas as três consequências de “somente”, já que estes constituem os três mandamentos de observação sociológica de acordo com a cartografia de controvérsias:

1. você não deve restringir sua observação a uma única teoria ou metodologia.

2. você deve observá-la a partir do maior número de pontos de vistas diferentes possíveis.

3. você deve ouvir as vozes dos atores mais do que suas próprias presunções.

Tendo em conta de que os três significados de “somente” devem também prevenir os estudiosos de uma leitura errada: “Apenas observar” nada tem a ver com o mito de observação não mediada. Se a cartografia social recusa a monogamia teórica e metodológica, certamente não é para atingir clareza ascética, e sim para flertar com a confusão e complexidade. Privada da proteção de conceitos e protocolos, a observação não se constitui de forma pura. Pelo contrário, ela é aberta a todos os tipos de interferências e impurezas. Longe de ser uma substância destilada a partir do caos coletivo, o conhecimento científico é o resultado de o maior número de contaminações possíveis.

Tal é a lição de “somente”: dispositivos de observação são mais valiosos quanto deixam aqueles que são observados interferirem naqueles que observam.

Leitores devem começar a entender o motivo pelo qual o conceito e processo minimalista da cartografia das controvérsias não irá tornar suas vidas mais fácil. Colocar a observação antes da teoria e metodologia nunca significou um fácil processo para os pesquisadores. Se Latour selou o “apenas” com a “observação”, isso foi para prevenir os estudantes de reduzir a investigação a partir de uma única teoria e metodologia. Na cartografia das controvérsias, todos os conceitos e protocolos merecem consideração, especialmente se eles são originados dos próprios autores. Todos os atalhos declinaram, a observação é obrigada a ser tão rica e complexa quanto os seus objetos. 

Texto original: Download texto inglês

TommasoVenturini_largeTommaso Venturini é professor e coordenador das atividades de pesquisa do Sciences.Po Medialab. Leciona disciplinas como Mapeamento de controvérsias, Métodos Digitais e Jornalismo de Dados. http://www.medialab.sciences-po.fr

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